Agora que os anos lhe consumiram a energia do corpo, Maria está cada vez mais pensativa. Sentada em sua cadeira de balanço, a casa vazia de filhos, o marido falecido há anos, ela se sente só. Seus sonhos, os mais ousados, nunca puderam ser. Como secretos amores, todos platônicos e cuidadosamente escondidos do pensar de outrem. Não foi propriamente infeliz. Nem é. Não lhe há marca de ingratidão no coração, tampouco grande remorso. Sua vida fora até aqui adequada, sem maiores dramas. Porém, agora, sentada em sua acostumada cadeira, Maria percebe como o dia-a-dia nos distrai, negando a vida, a vida como coragem ardente, acontecimento mágico. Pergunta-se, então, o que é a vida. O que é?