quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O Pesar de Jurandir

Quando morreu, Jurandir carregava algumas mortes nas costas. Mas nunca foram por querer ou por alguma razão mesquinha. Ele defendia a sua vida e a vida dos seus naquele sertão antigo. Todavia, não se orgulhava de ter matado. Doía-lhe a alma tal coisa, como chegou a dizer aos parentes e amigos.

Três meses depois de ser sepultado, nasceu sobre sua cova uma planta de pequeno porte, com folhas diferentes, planta nunca vista até ali por quem quer que conhecesse o assunto. E um detalhe chamou a atenção das pessoas: a planta derramava lágrimas, como se chorasse, como se Jurandir ali dissesse de sua dor, dor que levou para além desta vida.

Anastácio

Anastácio mora só. Já é velho e não lhe restaram parentes a quem recorrer. Os de perto se foram; os de longe sempre viveram afastados. Amigos, uns e outros, que nesta idade eles também rareiam. Mas Anastácio não é triste dessa tristeza que se tem quando jovem. É triste do peso da vida mesmo, que, com o tempo, torna-se mais visível.

Dona Arminda, mais jovem, vizinha que o observa, sente que ele, Anastácio, está se despedindo. Viu isso na diminuição dos sorrisos, das conversas e na mudança das cores das roupas que o velho usa. Diz ela: "Ele já se veste como quem vai embora: cores leves, cores de quem não pega na mão do desejo".

O Jardineiro e as Borboletas

— Por aí não!
— Por quê?
— Porque tem um camaleão lá na frente.
— Nossa! É mesmo.

Cidinha é um borboleta esperta. Laurinha a escuta. E as duas se salvam do camaleão. À noite as duas somem. Para onde vão? Não sei, não entendo muito dessa parte.

Os dias se passam até chegar aquela manhã em que não as encontro. Chega à tarde e nada delas. Passa-se o dia inteiro. Acabou.

Quantas despedidas já viveu este jardineiro que vos fala? Muitas. Mas se há despedidas, digo que, antes, houve vida e encontro. E isso é tudo.

Uma Refeição

O javali grita, as mordidas que arrancam a sua carne o deixam totalmente em desespero. As duas leoas seguem, seus focinhos se encharcam de sangue, suas garras seguram a presa. Depois de dias tentando, agora deu certo. A fome é um imperativo, não um capricho.

O javali respira ofegante, de algum modo sabe que não haverá socorro, é a vida naquele ambiente. Completos de lágrima, seus olhos veem, pela última vez, o céu. E tudo é apenas uma refeição. No mesmo ato a vida e a morte.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O Peso do Que Não Fiz

Não fui eu quem pulou naquele rio, nunca fiz isso. Não me arrependo. Ao menos, inteiramente, não. É que eu era uma criança obediente, bom filho. Lembro-me de minha mãe me orientar. E obedecia. Mas hoje, às vezes, penso no peso do que não fiz. Que peso tem?

A Aridez do Medo

Eu nunca lhe disse nada. Nunca lhe dirigi palavra. Anos e anos, ela passa aqui em frente, mas não tenho coragem. Acompanhei seus romances, começo, meio e fim. Participei deles, estranhamente. Sentia assim. E quantas vezes, na prudência dos lábios, longe dos outros, pronunciei seu nome: Suzana! E isso, esse nome em minha boca e sua imagem passando na rua são as únicas coisas "dela" de que me apossei. Mais nada. Semeio o que sinto na aridez do medo.

O Último Instante da Esperança

Não fui eu! E mais não sei dizer!

Ouviu-se isto, para, em seguida, ficarem os olhares a se perscrutarem, mutuamente, numa investigação cismada e sem certeza de que chegaria a um resultado. Ali, dada a circunstância, já era o julgamento de Ari. De seu rosto corria um suor grosso, quente, como se estivesse vindo do fundo de sua alma. Agora, em silêncio, esperava, mas não tinha esperança.